quarta-feira, 23 de março de 2011

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Hoje sentei-me no café que faz frente à tua casa e pus a leitura em dia. Bebi café, fumei um ou dois cigarrinhos e li muito.
Digo-te desde já que não escolhi o café baseando-me no facto que seria possivel ver-te... É um sitio agradável e calmo, onde o frio é proibido. Escolhi-o também porque, em tempos, foi um dos nossos lugares, onde partilhámos pequenos nadas que acabam por ser bem maiores do que o tudo.
Enquanto me perdia nas linhas do livro que conta uma historia bem semelhante à nossa, senti-te e olhei pela janela. Lá estavas tu, com os mesmo gestos, a mesma forma de andar, a tirar as chaves para entrares em casa. Por momentos desejei que te voltasses, que me visses e que caminhasses para mim. Não. Desejar não é o verbo adequado, esperei que o fizesses.
Entraste e eu fiquei colada à cadeira, com o coração a querer correr para ti, mas com a cabeça a querer continuar a apreciar o livro e deixar-te onde pertences: no passado.
Hoje pensei muito em ti, talvez mais do que nos ultimos dias. Pensei no tempo em que possuiamos o próprio tempo, pensei no teu ritual matinal que já conheço de olhos vendados - os teus três despertadores, cada um com o seu toque; a maneira como te esperguiças e depois te encolhes com frio quando os teus pés tocam na parede gelada.
Hoje pensei em tudo e quis-te muito o dia todo. E, ao ver-te a entrar, pensei que, num tempo já bem distante, estarias a ligar-me para estarmos juntos ao fim de um dia separados.
Imaginei-me a sair de casa à pressa, mas sempre com a demora tipicamente minha; imaginei-me a entrar em tua casa e a receber o beijo que me faltou o dia inteiro.
Tentei ignorar, tentei absorver-me de novo nas linhas e entrelinhas do meu livro, mas a mente já estava bem longe. Estava contigo, provavelmente. Não a sentiste?
Pensei no quanto me tenho lamentado por não te ter... Pobres aqueles que me costumam ouvir.
Já me fechaste a porta na cara muitas vezes, e cada vez com mais força. Essa porta é, claro, figurativa. É o som do coração a fechar-se e o teu fez estremecer tudo o que habita em mim. Fechaste-me o coração e vejo agora que não faz sentido manter o meu aberto para ti.
A verdade, meu querido, é que te quis muito e quis-te bem. Ou melhor, amei-te bem. Mas tu não, amaste-me mal porque sabes amar melhor.
O meu coração esteve em liquidação até hoje, não o quiseste de volta. Por isso, fecho-o agora que percebi o que o mundo inteiro me tem tentado explicar: quero-te muito mas, quando te tiver de novo, vou perceber que afinal não é nada disto que quero para mim; que a maneira como me tratas e como lidas comigo não é, de todo, correcta.
Obriguei-me a amar-te, porque me amavas desmedidamente. E agora esse amor forçado tende a não desaparecer. Amor? Não, vicio. Viciei-me em ti e no que me davas e agora estou a deitar fora a seringa.
Quando me apercebi disto, resolvi não me sujeitar a mais perigos de contágio. É exactamente este sentimento que queria alcançar e que, agora graças a qualquer coisa que ainda não defini, sinto-o à flor da pele. Chama-se despreendimento, paz. Fiz-te o luto, é altura de desapareceres.
Levantei-me e caminhei para casa o mais rápido que consegui para não perder as palavras que se estavam a formar.
A pita escreveu-te um texto, querido. O último de muitos que guardo nas gavetas do esquecimento e que agora sei que não serão mais abertas.
Consegues ouvir? É o som do meu coração a fechar-se para ti e deitei a chave ao mar, ao mais profundo dos teus arrependimentos, enganos e desenganos, traições e faltas de respeito.
Quando a vida me dá limões, faço limonadas e junto açúcar. Já não sinto a amargura que me causaste tantas e tantas vezes.
Não penses que isto é uma revolta, acredita que te escrevo com a maior das calmas e sem a ponta de rancôr ou de ódio, porque este não é o contrário do amor. O contrário do amor é a indiferença e agora vais sentir a minha como nunca sentiste.
Pus trancas na porta, desisti de ti e de nós.
Não acabo com "beijinho", porque isso guardo para os que amo e para os que me amam em retorno, guardo para os que me dedicam o seu tempo e para aqueles por quem punha as mãos no fogo. Fartei-me de me queimar por ti.

segunda-feira, 21 de março de 2011

True love

O apego é o preço do afecto. Sempre aprendi que quando não acaba bem, é porque ainda não acabou... Mas, afinal, como é que é possivel acabar bem? Acabar bem seria não acabar, seria ficar e tu não ficas. Nunca ficas.
Sempre fui do mais auto-destrutiva, sempre (ou quase sempre) estive de pé atrás em relação a tudo. Mas contigo foi diferente, perdi-te o medo. O que não faz sentido, já partiste para muito longe e so voltaste meses depois, deveria viver aterrorizada que te fosses embora de novo.
Mas não, nada disso. Não deixei o medo apoderar-se de mim e olhei sempre em frente. "Não deixes que o medo te impeça de jogar o jogo".
Por isso, explica-me como é que o medo vem de ti... Como é que eu me reiventei e estou "curada e inteira" e tu foges?
Não sei desistir, é uma das coisas que mais detesto em mim. Não sei dizer "chega". Ou melhor, digo-o muitas vezes, mas acaba sempre por ser um "chega...por hoje". Não sei parar, não tenho a noção de limite e por consequinte, perco a noção do ridiculo. Mas tu deverias estar aqui, a sério que sim...
Como não sei desistir, a única maneira de isto parar é cortar relações com o meu coração, utilizar a cabecinha (que já é tempo) e claro, tu mudares de país (outra vez).
Por isso, aqui está a tua pita. Desprovida de orgulho e de mania, a pedir que te livres do medo e que tentes como eu tento.
Não custa.
Não custa quase nada.
A parte má dos vicios é a dor que infligem quando deixam de saber bem. Mas, por vezes, deixa-los doi ainda mais.
Still loving you ♥

segunda-feira, 14 de março de 2011

Vai embora.

Meu querido, digo-te com a maior das tristezas que perdeste um grande amor.
Não sabes sentir, não sabes mesmo. Desconheces o significado de "preocupação", "amor" e "dedicação". Digo-te que agora é tarde para os aprenderes, mas devias começar a familiarizar-te com o significado de "solidão" - vais senti-lo na pele, vai bater-te de frente e deitar-te ao chão, tal como aconteceu comigo. O mais triste de tudo é que eu amei sozinha este tempo todo. Amei por ti e por mim e, de acordo com o vasto conhecimento que possuo de historias de encantar, não deveria ser assim.
Vais bater no fundo e vai doer. Mas, acredites ou não, digo-te que não vai doer nem metade do que me doeu a mim.
Não desejo mal a ninguém, mas não te desejo bem. Desejo que aprendas às tuas custas o que é a indiferença quando pensas que fazes toda a diferença. Desejo que aprendas o que é dar tudo e acabar com nada, lutar horas e horas seguidas para depois perceberes que estás a lutar sozinho. Desejo também que aprendas que quando se gosta, faz-se tudo; que venha o que vier, o amor deve prevalecer.
O amor é intemporal e eu continuo a amar, mas não a ti. Amo com menos preocupação, com menos esforço, com menos dedicação e mantenho o nível a que me entrego no minímo. Sabes porquê? Porque me estragaste, danificaste-me.
Mas o mundo dá muitas voltas e um dia vais acabar por cair tal como eu caí. Mas eu sei levantar-me, por muito impossivel que isso pareça agora.
Enfim. End of story.
Amei, lutei e perdi - há que caminhar de cabeça erguida. E quanto a ti, meu querido, espero que aproveites estes momentos em que és rei porque, contigo, tudo é sol de pouca dura e a roda da vida não deixa ninguém de pé.
Agora vai embora, e leva as tuas coisinhas todas, tornei-me inabitável para pessoas que se limitam a passar pela vida.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Final alternativo

(...) Depois de acabada a festa, depois de se despedir dos amigos e de proclamar a tão famosa frase "é para repetir", ele olhou à sua volta e apercebeu-se que a confusão reinava no seu apartamento. Dirigiu-se à cozinha em busca de sacos onde pudesse por os copos e as garrafas vazias e todos os vestigios de uma noite de alcool e outras substâncias menos apropriadas. 
Em vez disso, sentou-se no sofá e deixou-se mergulhar no pensamento que tentou por tudo esconder no seu interior a noite inteira. Pensou nela e no quanto era bom que ela estivesse ao seu lado. Em vez de ter que arrumar o caos em que estava a sua casa, teria apenas que fazer a cama e deitar fora o resto das pipocas. Teria sido uma noite calma, com um filme e uma mantinha e não com vodka e barulho.
Decidiu pegar nas chaves e sair na certeza que um bom pequeno-almoço lhe iria acalmar o estômago.
Enquanto caminhava em direcção ao parque, imaginava ouvir o som das botas dela a acompanhar os seus passos. É incrivel como o que o mais irritava antes era, de facto, o que lhe fazia mais falta agora. O vento gélido deu-lhe um "olá", obrigando-o a apertar o casaco e a meter as mãos nos bolsos. 
Enquanto tomava o pequeno-almoço, recordava como esta era a altura que mais gostavam de partilhar. E, então, movido pelas saudades misturadas com o que ainda restava do vodka no seu organismo, levantou-se e decidiu sucumbir ao desejo de a ver de novo. 
Caminhou em direcção à casa que já considerava sua e cada passo era equivalente a cem dúvidas. O vento e o seu orgulho empurravam-no para trás, mas os seus pés ja tinham ganho vida própria e assim continuou o caminho mais longo da sua vida. 
Quando deu conta, já estava no elevador em direcção ao andar que tão bem conhecia. A respiração tornou-se rápida e dificil de controlar. Não sabia o que dizer nem como dizê-lo. Aliás, a voz estava a falhar e o cerebro a desligar.
Tocou à campainha e conseguia ouvir passos a dirigirem-se à porta. Cada passo era mais cem batimentos descordenados do seu coração.
Ela abriu a porta e com os seus olhos procurou ver um traço familiar no rosto que lhe fazia frente, visto que a luz era bastante escassa. 
Ele já tinha ensaiado tantas e tantas vezes o que iria dizer pelo caminho. Entre planos de um discurso, de uma declaração ou de até mesmo virar as costas e entrar de novo no elevador, a única palavra que conseguiu formar foi "desculpa".



É esta a parte boa de gostar de brincar com palavras, posso escolher o fim de cada capítulo da minha vida. Mas fica só no papel, tens que sair do café, entrar no elevador e tocar à porta.
Aparece quando quiseres.
Sempre tua, M