Hoje sentei-me no café que faz frente à tua casa e pus a leitura em dia. Bebi café, fumei um ou dois cigarrinhos e li muito.
Digo-te desde já que não escolhi o café baseando-me no facto que seria possivel ver-te... É um sitio agradável e calmo, onde o frio é proibido. Escolhi-o também porque, em tempos, foi um dos nossos lugares, onde partilhámos pequenos nadas que acabam por ser bem maiores do que o tudo.
Enquanto me perdia nas linhas do livro que conta uma historia bem semelhante à nossa, senti-te e olhei pela janela. Lá estavas tu, com os mesmo gestos, a mesma forma de andar, a tirar as chaves para entrares em casa. Por momentos desejei que te voltasses, que me visses e que caminhasses para mim. Não. Desejar não é o verbo adequado, esperei que o fizesses.
Entraste e eu fiquei colada à cadeira, com o coração a querer correr para ti, mas com a cabeça a querer continuar a apreciar o livro e deixar-te onde pertences: no passado.
Hoje pensei muito em ti, talvez mais do que nos ultimos dias. Pensei no tempo em que possuiamos o próprio tempo, pensei no teu ritual matinal que já conheço de olhos vendados - os teus três despertadores, cada um com o seu toque; a maneira como te esperguiças e depois te encolhes com frio quando os teus pés tocam na parede gelada.
Hoje pensei em tudo e quis-te muito o dia todo. E, ao ver-te a entrar, pensei que, num tempo já bem distante, estarias a ligar-me para estarmos juntos ao fim de um dia separados.
Imaginei-me a sair de casa à pressa, mas sempre com a demora tipicamente minha; imaginei-me a entrar em tua casa e a receber o beijo que me faltou o dia inteiro.
Tentei ignorar, tentei absorver-me de novo nas linhas e entrelinhas do meu livro, mas a mente já estava bem longe. Estava contigo, provavelmente. Não a sentiste?
Pensei no quanto me tenho lamentado por não te ter... Pobres aqueles que me costumam ouvir.
Já me fechaste a porta na cara muitas vezes, e cada vez com mais força. Essa porta é, claro, figurativa. É o som do coração a fechar-se e o teu fez estremecer tudo o que habita em mim. Fechaste-me o coração e vejo agora que não faz sentido manter o meu aberto para ti.
A verdade, meu querido, é que te quis muito e quis-te bem. Ou melhor, amei-te bem. Mas tu não, amaste-me mal porque sabes amar melhor.
O meu coração esteve em liquidação até hoje, não o quiseste de volta. Por isso, fecho-o agora que percebi o que o mundo inteiro me tem tentado explicar: quero-te muito mas, quando te tiver de novo, vou perceber que afinal não é nada disto que quero para mim; que a maneira como me tratas e como lidas comigo não é, de todo, correcta.
Obriguei-me a amar-te, porque me amavas desmedidamente. E agora esse amor forçado tende a não desaparecer. Amor? Não, vicio. Viciei-me em ti e no que me davas e agora estou a deitar fora a seringa.
Quando me apercebi disto, resolvi não me sujeitar a mais perigos de contágio. É exactamente este sentimento que queria alcançar e que, agora graças a qualquer coisa que ainda não defini, sinto-o à flor da pele. Chama-se despreendimento, paz. Fiz-te o luto, é altura de desapareceres.
Levantei-me e caminhei para casa o mais rápido que consegui para não perder as palavras que se estavam a formar.
A pita escreveu-te um texto, querido. O último de muitos que guardo nas gavetas do esquecimento e que agora sei que não serão mais abertas.
Consegues ouvir? É o som do meu coração a fechar-se para ti e deitei a chave ao mar, ao mais profundo dos teus arrependimentos, enganos e desenganos, traições e faltas de respeito.
Quando a vida me dá limões, faço limonadas e junto açúcar. Já não sinto a amargura que me causaste tantas e tantas vezes.
Não penses que isto é uma revolta, acredita que te escrevo com a maior das calmas e sem a ponta de rancôr ou de ódio, porque este não é o contrário do amor. O contrário do amor é a indiferença e agora vais sentir a minha como nunca sentiste.
Pus trancas na porta, desisti de ti e de nós.
Não acabo com "beijinho", porque isso guardo para os que amo e para os que me amam em retorno, guardo para os que me dedicam o seu tempo e para aqueles por quem punha as mãos no fogo. Fartei-me de me queimar por ti.
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