(...) Depois de acabada a festa, depois de se despedir dos amigos e de proclamar a tão famosa frase "é para repetir", ele olhou à sua volta e apercebeu-se que a confusão reinava no seu apartamento. Dirigiu-se à cozinha em busca de sacos onde pudesse por os copos e as garrafas vazias e todos os vestigios de uma noite de alcool e outras substâncias menos apropriadas.
Em vez disso, sentou-se no sofá e deixou-se mergulhar no pensamento que tentou por tudo esconder no seu interior a noite inteira. Pensou nela e no quanto era bom que ela estivesse ao seu lado. Em vez de ter que arrumar o caos em que estava a sua casa, teria apenas que fazer a cama e deitar fora o resto das pipocas. Teria sido uma noite calma, com um filme e uma mantinha e não com vodka e barulho.
Decidiu pegar nas chaves e sair na certeza que um bom pequeno-almoço lhe iria acalmar o estômago.
Enquanto caminhava em direcção ao parque, imaginava ouvir o som das botas dela a acompanhar os seus passos. É incrivel como o que o mais irritava antes era, de facto, o que lhe fazia mais falta agora. O vento gélido deu-lhe um "olá", obrigando-o a apertar o casaco e a meter as mãos nos bolsos.
Enquanto tomava o pequeno-almoço, recordava como esta era a altura que mais gostavam de partilhar. E, então, movido pelas saudades misturadas com o que ainda restava do vodka no seu organismo, levantou-se e decidiu sucumbir ao desejo de a ver de novo.
Caminhou em direcção à casa que já considerava sua e cada passo era equivalente a cem dúvidas. O vento e o seu orgulho empurravam-no para trás, mas os seus pés ja tinham ganho vida própria e assim continuou o caminho mais longo da sua vida.
Quando deu conta, já estava no elevador em direcção ao andar que tão bem conhecia. A respiração tornou-se rápida e dificil de controlar. Não sabia o que dizer nem como dizê-lo. Aliás, a voz estava a falhar e o cerebro a desligar.
Tocou à campainha e conseguia ouvir passos a dirigirem-se à porta. Cada passo era mais cem batimentos descordenados do seu coração.
Ela abriu a porta e com os seus olhos procurou ver um traço familiar no rosto que lhe fazia frente, visto que a luz era bastante escassa.
Ele já tinha ensaiado tantas e tantas vezes o que iria dizer pelo caminho. Entre planos de um discurso, de uma declaração ou de até mesmo virar as costas e entrar de novo no elevador, a única palavra que conseguiu formar foi "desculpa".
É esta a parte boa de gostar de brincar com palavras, posso escolher o fim de cada capítulo da minha vida. Mas fica só no papel, tens que sair do café, entrar no elevador e tocar à porta.
Aparece quando quiseres.
Sempre tua, M
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